Atualizado em 02.03.19

_DIA #1

Hoje, resolvi parar de fumar. Não exatamente hoje, mas hoje foi o fatídico dia da parada. Pressões familiares (leia-se esposa absolutamente antitabagista) e uma pequena sensação de mal estar após aqueles ditos cigarros estúpidos (aqueles, que fumamos e não sabemos bem por que, talvez pelo hábito, e que não fazem o menor sentido) foram os motivos que me levaram a isso.

Essa é, teoricamente, a segunda tentativa, mas, praticamente, a primeira. Comigo, não funciona esse negócio de ir diminuindo até a hora em que não se fuma mais. Esse papo é bobagem. Eu vou me enganando, fumo escondido debaixo da mesa e, quando vejo, lá se foi mais um maço. Ou eu paro do dia pra noite, 100%, ou sigo a minha toada habitual.

Sendo assim, parei de vez. Para me ajudar, comprei o tal do Niquitin. São uns adesivos de nicotina, mundialmente conhecidos, que, dentro de um tratamento de dez meses, irá me fornecer a quantidade de nicotina que preciso para ir largando o cigarro.

Hoje, como havia dito, é o primeiro dia. Não coloquei um cigarro na boca. O maço está logo ali. O cinzeiro segue no mesmo lugar. Não quero jogar nada fora ainda. Eu sou um fumante, oras. Não posso me afastar desse meu amigo mau caráter de longa data assim, do dia pra noite. Mas, o fato é que, por mais vontade que eu tenha tido em determinados momentos, não fumei nenhum cigarro.

Sinto que os adesivos ajudam bastante. O adesivo, na verdade. É um por dia e ainda estou no primeiro. Amanhã cedo colocarei outro, depois outro, depois outro. Ouvi falar (e na própria bula diz) que um dos efeitos colaterais são os pesadelos. Estou com um pouco de medo, não vou negar. Não gosto de ter pesadelos; aliás, acho que ninguém gosta. Meu maior pesadelo é ficar sem fumar, portanto, talvez já o esteja vivendo aqui, ao vivo.

Por enquanto, como diriam os ingleses, so far, so good. Vamos ver onde vai dar. Tenho bebido muita água e não ataquei a geladeira violentamente em momento algum. Estou curioso para ver como vou lidar com o café e, principalmente, com uma boa birita. Adoro ambos e ambos me fazem fumar muito. Novamente, vamos aguardar.

A minha ideia é seguir esse diário até onde a vista alcançar. Amanhã tem mais. Torçam por mim.


_DIA #2

Um cigarro, pelo amor de deus.

Olha, não tem sido fácil. Chego ao segundo dia de uma maneira bastante sofrida. Achei que ontem, quando esse périplo começou, seria o dia mais difícil, mas já ficou claro que a tendência é só piorar. Não sei onde vou parar.

Até que consegui atravessar bem o dia, aplicando meu milagroso (ou pseudomilagroso?) adesivo de nicotina pela manhã, o que aliviou muito a vontade matinal de queimar um podre (maneira carinhosa essa com que eu e meus consortes chamamos o velho e bom cigarro). Consegui superar bem essa fase do dia, partindo para outra não menos complicada, o almoço, afinal, nada mais adequado como sobremesa do que uma boa tragada. Aliás, não só superei como arrisquei logo um dos gatilhos mais árduos que existem: o café.

Tomei coragem e, prato liquidado, mandei ver no barato preto. É claro que deu uma vontade danada de fumar, mas consegui aguentar usando outra técnica que tem se mostrado muito satisfatória: escovar os dentes. Se, com tudo isso, meu pulmão sobreviver, certamente o esmalte dos meus dentes não poderá dizer o mesmo. Pintou aquela vontade? Dentifrício nela!

Durante a tarde, foquei no trabalho e em outras coisas mais interessantes, mandei ver uma banana com leite condensado – olha aí, aquele papo de descontar no alimento se tornando uma verdade – e, aos trancos e barrancos, consegui vencer a vontade vespertina, afagando, de tempos em tempos, o adesivinho que, hoje, está estacionado na altura das minhas costelas. (Sim, é preciso aplicá-lo cada dia em um lugar diferente, o que me preocupa, pois não tenho tanta criatividade assim e tenho medo de esquecer onde já apliquei nos dias anteriores…).

O bicho pegou mesmo quando, de noite, minha esposa me chamou para encontrá-la em um restaurante. Fui de Uber e, atravessando a cidade, não consegui pensar em outra coisa que não o delicioso sabor do tabaco por entre meus lábios. Fiquei pensando que chegaria lá antes que ela e não teria muito o que fazer enquanto esperava. Outrora, um podre seria obrigatório nesse momento. Sei te dizer que, ao ver a cidade, as luzes, ao pensar nos bares, nas pessoas, etc e tal, a coisa foi ficando feia, bem feia. Cheguei lá atordoado.

Segurei a barra.

Jantamos, voltamos, lamentei um pouco para minha mulher o suplício que estou vivendo, me vangloriei de minhas conquistas e, assim, chego até aqui, tarde da noite, onde o adesivo parece não ter mais pulso e os goles d’água gelada (outro grande aliado) já não fazem mais efeito.

Devo continuar segurando a barra até amanhã, torcendo, vigorosamente, para que essa vontade tremenda vá diminuindo.

Por outro lado, estou cogitando transar uma onda com cigarro eletrônico. Ainda não sei, nem tenho um. Estou pensando.

Amanhã tem mais.


_DIA#3

Quando as coisas parecem estar melhorando, logo vem uma paulada na nuca.

Tenho conseguido atravessar bem o dia, segurar legal a onda depois do almoço e até mesmo depois do cafezinho. O bicho está pegando mesmo quando cai o sol. Estou parecendo vampiro: é só nascer a noite que eu fico ouriçado.

Realmente, após o jantar e ao longo da noite tem sido mais difícil. Não sei bem por quê. Talvez porque fosse aquele momento em que fico mais tranquilo, resolvendo minhas coisas em meu escritório e o momento em que mais fumava. Não sei bem. O que sei é que as noites têm sido duras.

Vira e mexe, eu vejo com total clareza que aquele era o momento em que eu fumaria um cigarro. Era ali que ele se encaixaria. Era ali que eu sentaria na minha varanda, admiraria a noite e queimaria o meu podre. Talvez nem tão poético assim, mas era ali que a mágica aconteceria.

Não mais. Agora, eu fico girando em falso no meio da sala, bebendo água gelada sem parar para tentar segurar a onda, procurando algo com gosto forte para colocar na boca para sentir qualquer sossego. E sempre acariciando meu adesivo com muita ternura, como que pedindo a ele para que libere aquela substância sagrada em minha corrente sanguínea o máximo que puder.

Tenho me sentido triste. No geral, é boa a sensação de não fumar. É uma experiência nova e tal. Quando acordo tenho me sentido bem e feliz, mas, em muitos outros momentos, é a tristeza de não mais fumar que me assola. Sentimentos misturados, abstinência a mil. Devo estar parecendo mulher gravida e sua bomba de hormônios.

Agora vou tentar dormir.

Amanhã tem mais.


_DIA #5

Vocês se lembram de que eu falei que estava com medo de pesadelos? Pois, vamos falar um pouco disso.

Bem, vale dizer que sigo firme no propósito. Uns picos de vontade aqui e ali, principalmente nas horas de ócio, mas estou driblando bem. Triste, mas bem.

Na minha cabeça, pesadelo é aquela coisa horrorosa, um verdadeiro filme de terror em que você está preso e, quando consegue acordar, além de estar suando feito um porco, é de bom tom que esteja gritando em sinal de alerta. Esse tipo de coisa eu não tive. Aliás, pensando agora, acho que nunca tive. Acho até que ninguém, fora do cinema e da televisão, teve.

O que está me ocorrendo – e eu tenho apreciado– são sonhos curiosos, interessantes, com alguns momentos de tensão, não posso negar, mas, o mais incrível, absolutamente longos e detalhados. Daqueles que tornam possível acordar, correr para o caderno e narrar a história tim-tim por tim-tim. Nunca cheguei a fazer isso, infelizmente. Deveria, mas não fiz.

Muita gente com quem falei ou li, contam que fumavam no sonho. Eu não. Em um deles, até me lembro de dizer que tinha largado o danado. Superdeterminado, até nas profundezas do inconsciente! Mas, o mais incrível, é que as pessoas conhecidas estão lá – um pouco desconexas, é verdade – e os lugares, também.

É claro que, de tempos em tempos, pinta um absurdo ou outro. Coisas como o pai de um amigo, que é medico, ter se tornado dono de uma pousada (que, na realidade, é a casa de campo deles) e não ter me cobrado nada pela hospedagem. (Mesmo assim, eu paguei alguma coisa. Até em sonho eu tenho dificuldades de aceitar favores). Teve também a ilustre presença do Zeca Pagodinho em uma festa em que eu estava. Ele era amigo íntimo do meu pai e estava lá, junto de todos os outros amigos de sempre, tomando uma e me tratando como se tivesse me visto nascer. Eu estava adorando ter essa amizade toda com ele. Houve também uma tentativa de assalto a uma amiga, um pouco mais abaixo de onde eu estava na rua. Corri para socorrê-la, cheguei falando grosso e, quando os facínoras vieram pra cima de mim, fiquei meio sem saber o que fazer. Acordei. Ainda bem. Outro mal-estar foi a presença do meu avô, envolto em uma espécie de papel alumínio, pronto para ser queimado – cremado? –dentro de um armário, enquanto o resto da família estava tranquila, papeando na sala. Eu estava um pouco agoniado, mas, no geral, parecia ser mesmo algo rotineiro, quase uma tradição familiar. Gente estranha!

Algumas vezes, meus TOCs também são colocados em jogo – o que pode caracterizar um pesadelinho, afinal. Em uma das vezes, lembro-me de que a tela do meu iPhone – que tem os ícones posicionados da mesma maneira desde sempre – resolveu enlouquecer e tudo se misturou, virando uma bagunça danada. Arrepiei que nem gato (enquanto aguardava o pessoal da NET subir, após ouvirem uma descompostura do meu porteiro pelo atraso, dizendo que eu estava vivendo à base de calmantes para aguentar o nervoso que eles me faziam passar – ou seja, até em sonho a NET presta um péssimo serviço), mas me lembro de, ao menos enquanto dormia, ter sido sensato e pensado que, ok, vou dar um jeito e fazer de tudo para voltar à arrumação normal. Foi um grande alívio quando acordei e percebi que estava sonhando.

Houve mais coisas, pois, em uma mesma noite, eu sou capaz de entrar em mais de um enredo. Agora, não estou me lembrando de nada muito pitoresco. Ah, apenas a façanha de, dada a minha atual potência onírica, estar no ápice do sonho, acordar sem querer, entender que estava sonhando, virar para o lado e entrar novamente na história. Nicotina barra pesada, essa que estou tomando.

Sigo sonhando. Dizem que a tendência e ir diminuindo conforme o corpo vai entendendo esse turbilhão de substâncias entrando, saindo, sendo trocadas… Vamos ver no que vai dar.


_DIA #7

Ontem, pela primeira vez, fui beber. Esse era o meu maior medo. O café eu segurei numa boa, o pós-refeição, também. Agora, a birita não é moleza. Mais que a vontade em si, é o hábito, é a saída da mesa, de tanto em tanto, para fumar. Fico me perguntando o que vou fazer agora. Terei de ficar sentado conversando ininterruptamente com as pessoas? É o que todos fazem? Que coisa… Provavelmente, nem tenho tanto o que falar assim.

Optei por começar minha vida etílica-nicotina-free em alto estilo e com uma companhia que não me deixaria fugir do roteiro: minha mulher. Pela primeira vez, deixaríamos o Duca – no ápice de seus 10 meses – dormir na casa dos avós para que pudéssemos ter uma noite só nossa, ganhando o tão almejado vale-night. E assim foi.

Começamos de leve, no Veloso, que, além de ótimas caipirinhas, serve também uma das coxinhas mais famosas da Capital. Fui na base do chopp e do caju-amigo, tudo certo. Ficamos do lado de fora e, embora houvesse um público tabagista logo ao lado, mantive a compostura sem suar frio. Senti muita necessidade de tratar do tema com minha mulher, o que, em dado momento, reparei que começou a aborrecê-la, mas, naquele momento, eu estava superando limites olímpicos e podia muito bem determinar o rumo da conversa sem medo de soar desagradável. Foi o que fiz.

Ficamos lá menos de uma hora e partimos para o próximo, que seria o ápice da noite, o tal do Skye Bar, no alto no Unique. Sempre ouvi falar muito a respeito e queria conhecer. Bem, como não estou aqui para fazer a crítica do estabelecimento, serei breve: além de ter fila para entrar – algo que eu não tolero (onde já se viu ter que esperar para entrar em um lugar que vou consumir e pagar? Isso, para mim, é inconcebível) –, e ter preços bastante exorbitantes, no fundo, no fundo, não passa de um bar de hotel. Um bom bar, de um bom hotel, é verdade, mas não mais que isso. O ambiente é legal, as pessoas ali parecem muito bem resolvidas – inclusive as profissionais da noite, sozinhas no balcão, a espera de algum gringo (três saíram acompanhadas, pelo o que conseguimos contabilizar) e a comida é satisfatória.

A tal parte de fora, onde, dizem, dá para ver São Paulo, não me pareceu tudo isso. Novamente, é ok, mas só. O problema é que ali é a área de fumantes. Embora não estivesse aquele fumacê de Rua Augusta, havia uma meia dúzia de cinco ou seis queimando o seu podre. Por isso, minha passagem por lá fora foi bem rápida. E, sim, senti muita vontade de fumar vendo as luzes da cidade. Foi bastante triste perder aquele momento, aquela liberdade de espaço e tal… Certamente, em outros tempos, seria o lugar em que eu ficaria instalado all night long.

No fim das contas, segui enchendo o saco da minha mulher, falando da minha relação com o fumo, acabamos entrando em discussões mais densas e profundas – e cadê a porra do cigarro nessa hora para legitimar uma fuga à parte externa? – e foi só. Tive vontade de fumar e passou. A noite acabou bem, embora tenha havido esses picos de estresse – os quais, na pior as hipóteses, eu culpo a falta de nicotina no meu sangue.

Quando cheguei em casa, não estava completamente bêbado, como era o esperado, então, consegui controlar melhor a vontade, que, na realidade, nem era tanta assim.

Moral da história: beber continua sendo um medo para mim. Além disso, senti que a vontade de tomar um drink diminuiu um pouco. Era só o que me faltava: ficar sem fumar e sem beber. Espero que seja só uma fase. Forçarei essa barra em breve.

Ainda não acho que estou preparado para ficar sentado em boteco sujo com os amigos fumantes, mas isso é questão de tempo. Jamais abriria mão desse ambiente tão inóspito e que eu tanto gosto.

Vamos que vamos. Mais uma dose, é claro que eu estou afim.


_DIA #8

Uma semana sem fumar. Firme e forte. Abrindo a segunda caixa de Niquotin. Sobrevivendo em meio ao caos. Vamos que vamos.


_DIA #13

As novidades vão diminuindo. Vou caindo na rotina. Reparei que nunca mais frequentei a varanda de casa, de onde eu era habitué. Não sei se por uma defesa natural, para não incorrer em um lugar que tanto me remete ao fumo, ou se realmente não tenho muito o que fazer por lá, já que a paisagem urbana não muda tanto assim. Só sei que tenho preferido a sala.

Outro dia um amigo veio em casa e tomei um bom scotch com ele, que, de tempos em tempos, ia à varanda para fumar. Segurei bem a barra, embora, após algumas doses, foi ficando bastante árdua e sórdida, a situação. Sobrevivi e descobri que utilizar a sala de casa para beber e bater papo também pode ser algo bacana de se fazer!

Hoje, fui no aniversário de uma amiga, em um bar badaladinho. Aquele medo, aquela falta de vontade de beber, já que não poderia fumar. Acabou que deixei a Valley tomando o chopp dela e me concentrei em minha própria sobriedade, pai responsável que sou, para levar a família sã e salva para casa. Foi uma experiência no mínimo interessante, ficar em um bar sem beber. No entanto, chegar bem em casa com pique de fazer tudo o que eu tinha pra fazer, não tem preço. Só não posso, repito, deixar isso virar um hábito. Gosto de beber e sou ótimo bebendo. Preciso reaprender a lidar com essa conjuntura.


_DIA #28


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