De como, quatro anos depois, Tiririca ainda consegue criar alvoroço com sua propaganda política

Felipe Lima
Flávia Arcanjo

*Artigo publicado originalmente no extinto portal Be Style, em 5/9/14.

Provavelmente você já escutou o conto de um certo pobre que, todos os dias, ia pedir esmola na feira. As pessoas lhe mostravam duas moedas, sendo que uma valia dez vezes mais que a outra, e esse homem sempre escolhia a moeda menor. Esse fato correu pela cidade e, dia após dia, diversas pessoas lhe mostravam duas moedas, para se divertirem com a tolice do pobre homem, que continuava escolhendo a moeda menor.

Certo dia, um senhor generoso o chamou de canto e lhe disse: “Sempre que lhe oferecerem duas moedas, escolha a maior. Desta forma, você terá mais dinheiro e não será mais considerado um idiota”. O suposto tolo sorriu e respondeu: “Se eu escolher a moeda maior, as pessoas deixarão de me oferecer dinheiro, pois não poderão mais provar que eu sou mais idiota do que elas. Você não imagina a quantidade de dinheiro que já ganhei usando esse truque”.

Em 2010, outro suposto tolo surgiu no cenário político brasileiro. O palhaço Tiririca, personagem do deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva, recebeu 1,3 milhão de votos, tornando-se o deputado mais votado naquela eleição e, por pouco, quase o mais votado da história. E como ele conseguiu essa façanha? Passando-se por um abestado, é claro!

Não é de hoje que somos absolutamente insatisfeitos com a maneira como nossa política vem sendo conduzida. Político tornou-se sinônimo de corrupto, política tornou-se algo que não se pode ser realmente levado a sério e o horário político, por sua vez, pode ser catalogado como um freak show de qualidade bastante duvidosa, o que acabou fazendo com que qualquer pessoa com um senso de mundo minimamente razoável e um juízo livre de apegos partidários tenha a clara visão de que a corrupção existe, seja na esfera que for, variando apenas seu grau de intensidade. Com isso, torna-se cada vez mais patente a máxima: “Votarei no menos pior”.

Em meio a esse dantesco cenário, Tiririca surgiu entrando com os dois pés no peito do que ainda pudesse restar de bom senso e escancarou de vez a grande palhaçada que, já há muito tempo, havia se tornado a nossa política em geral e, mais especificamente, o horário político. Transformou os defeitos do Brasil em piada, fez do palanque um verdadeiro picadeiro e a sua campanha política atiçou aquela velha opinião de que o voto é algo banal, visto que não mudará nada, já que o Brasil é um país sem solução. Pior do que está, afinal, não fica.

É claro que as críticas vieram na mesma velocidade em que seus vídeos tornavam-se virais. A maioria parecia criticar não o fato de um palhaço de circo semianalfabeto estar se candidatando, mas sim o fato desse palhaço aparecer na televisão vestido como tal, arrebentando com qualquer possibilidade meramente política que ali pudesse haver e dizer coisas como: “Sou candidato a deputado federal. O que faz um deputado federal? Na realidade, eu não sei, mas vote em mim, que depois eu te conto! Para deputado federal, Tiririca. Vote no abestado”.

Foi genial, temos que admitir. Vamos, por um minuto, deixar de lado as críticas óbvias e o bom senso cívico e pensar no seguinte: Francisco Everardo é um bom humorista e o Tiririca é um personagem engraçado. Está longe de ser um humor refinado, mas, tem o seu valor. A grande sacada está, em primeiro lugar, no absurdo dessa figura aparecer em um ambiente que, à priori, deveria ser sério, com senhores de terno lendo em um teleprompter algo que deveria fazer sentido. Em segundo lugar, está o fato dessa suposta contradição tornar-se a premissa para aquilo ser genial.

Que sentido faz, afinal, aquela grande maioria que tem seus vinte, quinze segundos chegar com uma cara de quem acabou de voltar de Marte e foi posta para ler algo quase incompreensível em uma velocidade estonteante? Se pararmos para pensar, é o fim do mundo também. Deste modo, torna-se louvável que alguém tome a iniciativa de fazer um humor verdadeiro e honesto em um ambiente onde a seriedade e o verdadeiro debate político já não habitam mais há muito tempo, mas ninguém é capaz de admitir isso oficialmente. Na pior das hipóteses, serviu como um bom tapa na cara da sociedade.

 

Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, enquanto Deputado

 

Por outro lado, há que se criticar, sim, quem vote em um candidato desses. E esse é o ponto crucial de toda a discussão. O cara chegar lá e fazer o que fez não é problema algum, afinal, o horário eleitoral tornou-se um entretenimento de má qualidade há muito tempo. Agora, simpatizar com tudo isso a ponto de dar seu apoio político à tamanha pândega é um problema grave. Não só por elegermos alguém bastante despreparado para um cargo público importante, mas, principalmente, pela porta de entrada que tantos votos acabam se tornando para outras pessoas que, em geral, não fazemos ideia de quem seja.

Ao lançar o deputado Tiririca, o Partido da República (PR) realizou uma de suas melhores campanhas e colheu excelentes resultados: com o impulso da candidatura, o partido elegeu 41 deputados federais (78% de crescimento). É bem possível que se eles tivessem realmente se empenhado para isso com uma grande proposta política, não teriam alcançado nem metade desses números.

Em meados de 2014, Tiririca disse que se afastaria da vida política. É claro que seu partido viu que perderia a grande galinha dos ovos de ouro e, de algum modo que até as mentes menos criativas podem prever, convenceu-o a tentar a reeleição. E lá estava ele de novo, mas dessa vez com um tempo bastante generoso, quase um minuto e meio. Poderíamos pensar que após quatro anos de vida política algo teria mudado, que dessa vez ele poderia apresentar propostas reais, enfim, fazer algo mais convencional.

Doce ilusão! Ele conseguiu ser mais absurdo ainda. Parodiou de forma bastante abilolada não só o polêmico comercial da Friboi, aquele no qual Roberto Carlos volta a comer carne, como também a música O portão, imitando o cantor – e, tratando-se logo de quem, é claro que no dia seguinte já havia ameaça de processo caso a propaganda não fosse imediatamente retirada do ar. Não bastasse isso, já que o tempo de propaganda era muito longo e as ideias ali contidas não eram tão profusas assim, eles tiveram a cara de pau de simplesmente repetir a paródia. Em vez de um comercial de um minuto e meio, tivemos a duplicata de um de 45 segundos. E, novamente, o resultado final foi absolutamente genial, por todos os motivos já elencados acima.

Em sua segunda intervenção, terça-feira passada, resolveu cumprir sua antiga promessa. Lançou um vídeo no qual apresenta a seguinte frase: “Eu falei para vocês que ia dizer o que um deputado federal faz. Deputado federal trabalha muito e produz pouco”. O palhaço terminou o vídeo dizendo que para ser um bom deputado federal tem que conhecer Brasília, fazendo metáfora com uma Brasília amarela velha, um pouco pior do que dos Mamonas Assassinas.

E quem acha que a piada parou por aí, engana-se. Tiririca disse que “Brasília” (seria o carro? Seria a cidade?!) possui alguns podres, mas funciona, pois mesmo com toda essa podridão tem que funcionar e que ele quer continuar sendo deputado para melhorar a Brasília. E, novamente, duplicaram o comercial de 45 segundos. No fim das contas, a impressão que passa é que os caras, com o perdão da expressão, ligaram o foda-se e pronto. Tá resolvido. Põe no ar. Simples assim.

Mas, verdade seja dita, de tonto ele não tem nada. Arriscou-se, quatro anos atrás, fazendo algo que poderia dar certo, mas, acima de tudo, poderia dar bem errado. Visto o belíssimo resultado, cá estamos novamente, quatro anos depois, tendo as mesmíssimas discussões enquanto ele está lá, sendo reeleito. Assim como Valesca Popozuda foi citada em uma aula de filosofia, é muito possível que Tiririca torne-se tema de estudo nas universidades, como exemplo de um dos cases de comunicação mais bem sucedidos na política dos últimos anos. E pensar que ficávamos chocados com o velho e bom “meu nome é Enéas!”. Bons tempos!

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