“O pastor Feliciano é uma benção de Deus”, diz Letícia Sabatella. Esse era o título da matéria que circulava pelo Facebook esses dias. Claro que achei estranhíssimo, entrei para conferir e me vi diante de um “portal de notícias” com o duvidoso nome de Glamurama, onde uma notinha explicava que a atriz achava ótimo que pintasse um cara desses para gerar toda essa discussão sobre a homossexualidade, casamento gay e outros preconceitos. Ah, tá! Que sacada, hein, redator? Tirando o gosto duvidoso (e desonesto) do trocadilho, era tudo uma questão de contexto. Letícia Sabatella, afinal, não perdeu o juízo. Que bom.

Assistimos, na semana passada, um ouriçado rebu nas redes sociais diante de uma foto do diretor Gerald Thomas, com todos os requintes de primitivismo e animalidade, ora enrabando (perdão, mas o termo é esse), ora tentando cravar suas mãos dentro do curtíssimo vestido de Nicole Bahls. Gritaria generalizada, é claro. Sem muita variação, a grande maioria crucificava o diretor, sem maiores chances de diálogo. É bem verdade que a foto tem um aspecto horroroso e passa uma péssima ideia, mas, na hora, fui firme e tentei acalmar os ânimos dos que me cercavam: “Calma, gente. Esse cara é um gênio e certamente existe alguma justificativa minimamente plausível para isso. Vamos esperar o programa ir ao ar e ver o contexto em que rolou tudo isso”. Sem sucesso. Fui olhado torto, fui criticado e a mulherada (só havia mulheres no recinto, para infortúnio de minha tese), discretamente, fechou mais um botão de seus decotes.

No dia seguinte, lá estava uma notinha no blog de Gerald Thomas (o qual, aliás, nunca recebeu tanta visita como nesta semana). Opa. Parece que as coisas foram ficando um pouco mais claras. Em um discurso bastante honesto e sensato, ele conseguiu, de certa forma, se posicionar da seguinte maneira:

O programa se chama “PANICO”! E eles vem com tudo! Mas são gente finíssima. […]Vem uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PANICO e eu (que não deixo me intimidar e gosto desse pessoal) entro no jogo e viro as cartas – e os intimido ! (que nada! Brincadeira também!) (TUDO BRINCADEIRA, GENTALIA HIPOCRITA […]Eu, Gerald Thomas, faço a olho nu, na frente dos fotógrafos, das câmeras, das luzes, o que esse bando de carecas e pseudo moralistas gostaria de estar fazendo atrás de portas fechadas, com as luzes apagadas![…]

Continuei firme no meu ponto, a saber: as fotos são de péssimo gosto, denotam uma violência sem igual, mas, certamente há um contexto que justifique aquilo. Uma pergunta que me fiz foi a seguinte: será que metade dessa gente que tanto grita faz mera ideia de quem seja Gerald Thomas? Será que conhecem seu trabalho, sua performance dentro e fora de palco? Já ouviram falar de sua genialidade e sua loucura, que tão bem se coadunam? Bem, poderia apostar que não. Eu, por minha vez, estou longe de ser um especialista sobre a vida e a obra de Gerald Thomas, mas tenho o mínimo senso de saber que temos ali um dos grandes cérebros pensantes do nosso país – ao menos no sentido artístico– e que, certamente, está algo cima de uma simples brincadeira de mau gosto.

Muito bem. Ontem foi ao ar o tão famigerado quadro em que tudo isso aconteceu. Na realidade, assisti ao vídeo somente hoje, e, convenhamos, 24 minutos de Pânico na TV é dose pra mamute, mas sobrevivi. Não vou rascunhar uma análise detalhada sobre o que ali aconteceu, pois qualquer um que tenha visto (e está disponível na internet para quem quiser tirar isso a limpo) poderá concluir que tudo ocorreu dentro de um ambiente sadio (embora, em se tratando de Pânico, este é um adjetivo um pouco abusado) e fazia parte do jogo. Afinal de contas, até que eu estava com a razão. Continuo achando a coisa toda de um certo mau gosto, mas, como disse, estamos tratando do programa Pânico. Não digo que nada possa ser pior, mas poucas coisas podem ser mais agressivas e apelativas do que o que eles vêm há anos oferecendo ao telespectador que, não só agradece, como pede mais. Ora! Mas que marotismo agradável pudemos assistir na matéria. Gerald Thomas, afinal, não é um lunático violador de mulheres. É apenas um lunático, um adorável e genial lunático que optou por uma brincadeira infeliz em um momento que, infelizmente, permitia isso.

O negócio é que a falta de contexto vem se caracterizando como um mal dos novos tempos. Isso vai desde aquelas bobageiras assinadas por Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu que circulam pelo Facebook, até coisas mais graves, como a condenação pública de um cidadão por conta de uma imagem mal interpretada, mal colocada. É claro que a mídia ajuda para que tudo isso aconteça, afinal, eles vivem disso (não toda a mídia, que fique claro, mas esse nicho do “infotenimento”), mas acho que podemos tentar ser um pouco mais autossuficientes nesses momentos em que devemos (sim, devemos, porque não ter opinião sobre qualquer coisa que seja configura falta grave) tomar partido sobre algum acontecimento. Vamos pensar um pouco mais antes de sair falando bobagem por aí e, acima de tudo, julgando e condenando pessoas que, muitas vezes, agiram dentro de um contexto que as justificavam.

No que diz respeito às supracitadas mulheres com as quais debati o assunto, voltaram, após ver o vídeo, a abrir seus gloriosos decotes quando em minha companhia. Que bom!

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