Bem sei que em uma escala de atraso eu estaria encabeçando qualquer disputa que possa haver, mas o negócio é que desde domingo último estou ávido por vir aqui dissecar algumas opiniões sobre a 85ª premiação da academia e, por motivos muitas vezes ocultos à minha própria percepção, acabo me evadindo de minhas metas. Que seja. Cá estou eu.

Aliás, antes de qualquer coisa, cabe ressaltar a importância deste post, que cumpre o cargo de primeira “escrevinhação” desta nova fase do Qualquer Bobagem. Um brinde, então! (Voltarei a versar sobre esta nova fase em futuros posts).

Dito isso, vamos ao Oscar.

Festa inovadora

A grande promessa para este ano era uma premiação mais moderna, mais jovial, diferente do que estamos vendo há tantos e tantos anos, sempre com a indefectível presença de uma Whoopi Goldberg a tumultuar nossas lembranças. Justamente na octogésima quinta festa, então, eles resolvem querer inovar e anunciar isso como uma meta. A começar pela escolha do apresentador, é verdade, eles conseguiram. Seth MacFarlene, conhecido por criações como Uma família da pesada e American dad, ambas brilhantes, foi o nome escolhido para representar a tal inovação. Ponto para os organizadores. Não há dúvida de que colocá-lo ali, naquele papel de capitão do barco, foi algo inovador. Ele tirou sarro de si mesmo e de muita gente que lá estava, bem ao seu estilo. Os vários comentários dele a respeito do já tradicional longo e cansativo tempo de premiação foi um dos pontos altos de sua apresentação. É o que todos sempre quiseram dizer, sejamos honestos. A presença do urso Ted, criação do próprio MacFarlene para entregar um dos prêmios, também pode ser considerada um ato de sagacidade por parte dos organizadores. Tido por muitos – a começar pelo nosso pândego Protógenes Queiroz – como um filme/personagem absolutamente politicamente incorreto, é um prazer vê-lo em tão solene evento. E para por aí. De resto, programação normal, com todas as chatices e protocolos já esperados, microfones cortados, musicais aborrecidíssimos e assim por diante. Mais um Oscar, mas, valeu a intenção, de verdade. Espero que Seth MacFarlene volte ano que vem para nos brindar com sua inteligência e bom humor.

A premiação

A primeira e grande gafe de todo esse enredo foi o fato de Argo ter sido indicado para o prêmio de melhor filme e seu diretor, Ben Affleck, ter sido jogado para escanteio. (Em tempo: Seth MacFarlene, logo no início, já teceu ácidos comentários sobre isso. Pontos para ele, de novo). Aqui não vale muito o argumento de que talvez ele não merecesse estar entre os indicados, pois o rapaz ganhou o prêmio de melhor diretor algumas vezes (incluindo Globo de Ouro e BAFTA), ou seja, não seria mero protocolo, havia razões mais do que lógicas para a presença dele ali. Por outro lado, esse já seria um grande prenúncio do que aconteceria ao final, mas, admito, demorei para ligar os pontos.

Tirando duas categorias – sobre as quais eu já falo –, todas as outras me pareceram muito justas e sem maiores sustos.

Minha primeira alegria da noite foi ver Christoph Waltz erguendo a estatueta de melhor ator-coadjuvante. O prêmio não poderia ter sido levado por mais ninguém a não ser ele, que fique claro, mas a gente nunca sabe (ou sempre sabe?) o que esperar desses acadêmicos, então, mais do que uma alegria, foi um alívio confirmar tal premiação. Ele estava absolutamente excepcional no filme, quem assistiu sabe, não carece de maiores delongas.

Django Livre não recebeu o prêmio de melhor filme, o qual teria, sim, sido muitíssimo justo, mas levou para casa a estatueta de melhor roteiro original, escrito por Tarantino, gênio absoluto. Fiquei satisfeito. Tanto por ele (Tarantino) quanto pelo filme em si. Como homem das letras que sou, acho muito especial a categoria de melhor roteiro. Cabe dizer aqui que, por outro lado, eu estava torcendo muito para a dupla Wes Anderson e Roman Copolla, pelo roteiro do maravilhoso Moonrise Kingdom. Sou fã declarado do Wes Anderson e, claro, torci por ele, mas nem penso em negar que o prêmio esteja em ótimas mãos.

Não assisti ao Les misérables. Simplesmente não suporto musicais e, pelo pouco que vi em trailers e no decorrer da premiação, teria tido uma síncope nervosa dentro do cinema. Melhor evitar. Anne Hathaway foi agraciada com o prêmio de melhor atriz-coadjuvante pelo que andou aprontando nesse filme. Era esperado, admitamos. Hollywood adora um drama exagerado. Quanto mais pantomima, melhor. Não vejo muita graça nela, mas reconheço que é uma boa atriz. Nada fora do comum, apenas uma atriz com bons trabalhos no currículo. A única que, na minha opinião, oferecia risco a ela (e um risco muito do justo) era Jacki Weaver, que interpretou maravilhosamente bem a mãe do Bradley Cooper em O Lado bom da vida. Era a minha preferida, mas, contra cantorias melodramáticas, não há bom senso que resista.

O prêmio de melhor ator ter ido parar na estante de Daniel Day-Lewis não foi espanto para absolutamente ninguém. Merecidíssimo, além de não ter nenhum oponente à altura. Sem mais.

Vamos, então, ao primeiro tapa na cara da noite: Ang Lee vence na categoria de melhor diretor. Já falei o que tinha para falar sobre Aventuras de Pi em um videocast, mas há uma frase do José Wilker que resume tão bem meus sentimentos sobre esse filme que faço questão de trazê-la aqui: “Adorei o filme até a hora em que o navio afundou”. Simplesmente isso. Dali pra frente é mais do mesmo, é alegoria barata, é um show de efeitos especiais. E só. Um prêmio para melhor efeitos visuais já teria saturado toda e qualquer possibilidade da obra. Mas quiseram ir mais longe, quiseram dizer ao mundo que todos se sensibilizaram com as reflexões pseudo-espirituais-religiosas do Pi. Ou, quem sabe, simplesmente quiseram deixar de dar o troféu ao alemão Michel Haneke e seu estupendo Amor. Não vejo outros motivos para premiarem Ang Lee como melhor diretor, infelizmente. Sempre lembrando que tanto Tarantino quanto Ben Affleck estavam fora dessa disputa. Sorte deles. Imagino a frustração de perder para uma historieta dessas.

Aventuras de Pi, dessa vez mais do que merecidamente, também levou para casa o prêmio de melhores efeitos visuais. Até aí, beleza. A roda engripou quando cortaram o microfone (hábito costumaz da premiação) de um dos responsáveis pelo feito quando este tentou falar da triste situação do estúdio que fez – com plena perfeição, diga-se – o tal do tigre, que simplesmente foi à falência e deixou de pagar um monte de gente talentosa. Não bastasse a falência propriamente dita (é um absurdo, convenhamos, que uma gente responsável por tão bom trabalho tenha de fechar as portas em uma indústria milionária que é a de Hollywood), o que já gerou protestos em todo o mundo dos efeitos visuais, o corte de microfone foi a cereja do bolo. Nada de infortúnios em tão bela premiação, por favor. Vamos tocar a música do tubarão. No dia seguinte, lá estavam milhares de fotos de perfil do Facebook simplesmente verdes, tal qual os fundos falsos usados para os efeitos visuais. Protesto interessante, cabe ressaltar.

Quando, então, eu achei que o pior já havia passado, ledo engano. É chegada a hora do prêmio de melhor atriz. Que rufem os tambores. “The Oscar goes to… Jennifer Lawrence”. O quê? Em que mundo estamos? Era verdade. Aquela menina ganhou o prêmio de melhor atriz. Dessa vez, não adianta nem a velha desculpa de que é uma festa americana, feita para americanos e blá, blá, blá. Não há argumento que torne razoável a escolha dela como melhor atriz. Não somente por ela não ser uma atriz digna de Oscar, ou  pelo papel que ela desenvolve no mediano O lado bom da vida ser também bastante mediano, mas principalmente por ela estar concorrendo com uma senhora chamada Emmanuelle Riva que simplesmente brilhou no bonito, tocante e visceral Amor. Isso foi o que me incomodou. Não a imerecida glória dada a ela, mas a falta de glória dada a Emmanuelle. Lamentável. Talvez seja um prenúncio de que toda a suja política existente por trás de Hollywood esteja tomando proporções irremediáveis. É uma tristeza, acima de tudo, ao Cinema, em caixa-alta mesmo. É, em última análise, a morte da arte vista em high-definition.

Fim de noite, todos cansados (tal qual deve estar você, cara leitora, nessa altura de minha prosa), eis que surge o sempre bon vivant Jack Nicholson para apresentar o prêmio de melhor filme. Nessa altura, admito, já estava desoladíssimo cogitando a possibilidade de que Aventuras de Pi iria levar o caneco. Sem que esperemos, aparece Michelle Obama no telão. Uau! Ponto para os organizadores. Achei muito notável o fato da presidência (ainda que não na imagem do presidente) dos EUA se misturar a tão profana festa, digamos assim. Passo a gostar ainda mais dos Obama depois dessa. Muito bem. Quem faz o anúncio é ela e o prêmio vai para Argo. Uma agradável surpresa! O filme é muito bom, realmente. Enredo interessantíssimo, que é desenvolvido em uma narrativa que prende nossa atenção de ponta a ponta. Fotografia e artes excelentes, conseguindo nos tragar para aquele ambiente setentista e revolucionário. Direção e atuação super dignas da premiação também. Tudo na medida. Ainda que Argo seja, sim, um filme sobre a glória americana, não é um filme estritamente para americanos, como é o caso de Lincoln, que, embora muito bom, é bastante confuso e cansativo, feito para um público bastante específico. Foi aí que eu me toquei do sentido da ausência de Ben Affleck na lista de melhor diretor. Seria muito para o filme ganhar as duas categorias. Uma só bastava. Como seria muito para o Pi ganhar melhor filme, deixemos de fora da lista de diretores Ben Affleck – afinal, não faz muito sentido premiar um filme e não seu diretor, certo? – e demos a ele este brinde final. Entendi tudo. Bem pensado, ainda que me revolte esse crédito todo ao fatídico Pi.

No decorrer da festa

Algumas coisas interessantes ocorreram no decorrer da premiação que merecem nota. Uma delas foi uma homenagem aos 50 anos de James Bond. Merecida homenagem, diga-se. Halle Berry apresentou um bom vídeo a respeito, perpassando todos os bons momentos da trajetória da franquia. No entanto, uma ideia de que estou certo não foi só eu que tive, mas que seria muito legal, seria trazer todos os atores que fizeram o agente ao palco. Ora, se todos estão vivos, por que não? Teria sido algo realmente emocionante. Piadas a serem feitas no palco entre eles, estou certo de que não faltariam. E, como sonhar não custa nada, que tal colocar sir Paul McCartney ao fundo cantarolando um Live let die? No lugar disso, trouxeram uma já cansada (mas ainda com um vozeirão) Dame Shirley Bassey cantando o tema de Goldfinger.

Adelle, chata como sempre, subiu para cantarolar o tema de Skyfall, último filme da série e também levou para casa a estatueta por esse trabalho. O negócio, eu acho, é que a figura dela me incomoda profundamente. Ô menininha sem expressão. Não sei bem explicar, mas ela me passa um aspecto péssimo. Tenho a impressão de que ela feda a naftalina, ainda que não seja mais velha do que eu. Parece uma boneca de porcelana de mau gosto. Não sei definir bem, mas algo nela me causa profunda – e, admito, irracional – ojeriza. Argh…

O lacre dos envelopes foi algo que chamou a atenção. Êta coisa bem colada! Quem prestou atenção, viu que, salvo engano, não houve uma pessoa que não tenha tido dificuldades em abrir o tão precioso envelope. Inclusive a primeira-dama. Acho que podem pensar em algo menos potente para o ano que vem. Duvido que os segredos contidos no envelope sejam tão secretos assim.

Comecei assistindo a premiação pela TNT, não sei bem por que, talvez por achar que a Globo sempre dá uma tapeada nessas transmissões ao vivo. Que arrependimento! O Rubens Ewald Filho, como tradutor simultâneo, é um ótimo crítico de cinema (ou quase isso. Acho chatíssima a maneira como ele coloca algumas coisas). Fazendo dupla com ele estava uma senhora, cujo nome não me recordo, que, de tão atrasada na tradução, tornou impossível que entendêssemos o que se dizia tanto em português quanto em inglês. Espero que a TNT, um canal sério, se preocupe mais com esse fator no ano que vem, pois, acredite, é realmente importante para quem assiste. Pulei para a Globo e me dei bem com a boa parceria de José Wilker e Maria Beltrão, tanto no que diz respeito à tradução quanto aos comentários. Mais sensatos, objetivos e menos pedantes que o do Ewald Filho.

Fazendo um balanço geral, foi uma boa premiação. Cheia de acertos e erros, é verdade, mas em uma medida que não atrapalhou o andamento da coisa e não incomodou quem se dispôs a dispensar três horas de sua vida em frente da televisão para acompanhar. É, sem dúvida, uma grande festa para os amantes do cinema, por mais Hollywoodiana que seja.

Ano que vem tem mais!

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